A eternidade é a memória

Acabo de assistir um filme do diretor grego Theo Angelopoulos chamado Eternidade é um dia(1998). Há dois dias assisti sua Odisséia, o filme Um olhar a cada dia (1995). Nos filmes desse diretor nada passa, a memória persiste e habita a vida dos personagens. Acredito que isso é verdade: nada passa mesmo. Porém a fidelidade depende da lembrança e também da importância que você dá a cada coisa. Em novas paisagens, novas fidelidades, novas memórias... É assim, simplesmente? Simplesmente, acho que não. Não é possível retalhar a realidade em fórmulas tão exatas. Mas a memória nos acompanha... as experiências boas e ruins que tivemos nos formam: somos elas. Contudo, nada mais importante que o dia de hoje, o dia que se está vivendo... nada mais urgente... esse é o paradoxo. Numa cena de Um olhar a cada dia, sob a névoa de Sarajevo, em ple  guerra civil, jovens saem para dançar... a cortina de fumaça esconde a tristeza e o protagonista desajeitadamente aceita  dançar... é a tristeza que dança...

Faltou palavras para dizer o que os fime me disseram... me identifiquei, basta.  Então peguei parte de uma das falas de um protagonista:

Nos últimos meses meu único contato com o mundo foi este vizinho desconhecido, que sempre me responde com a mesma música. Quem é ele? De que ele gosta? Uma manhã, eu queria ir encontrá-lo, mas depois mudei de idéia. Talvez seja melhor não encontrá-lo e sim imaginá-lo. Será um eremita como eu? Ou talvez uma menina brincando com um desconhecido. Tudo passou tão rápido! Esta dor suspeita... minha obstinação de querer aprender, de querer saber... então as trevas... o silêncio em munha volta... o silêncio. Tu me faz crer que antes do fim do inverno com as etéreas silhuetas dos barcos, e seus súbitos desaparecer no céu, com os amants passeando, no sol poente, e a hipócrita promessa da primavera, me faz acreditar que antes do fim do inverno...Meu único pesar, Anna...- mas este é o único? -..é não ter terminado nada. Deixei tudo como um rascunho,espalhando palavras lá e aqui.



Escrito por Marcos Carvalho Lopes às 23h34
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